Piazza

Piazza

Se há um nome que, ao ouvi-lo, é imediatamente associado ao Cruzeiro, esse nome é: Wilson Piazza. Sua história se funde a do clube cinco estrelas, afinal de contas não é por acaso que um jogador se torna capitão de um time por 10 anos (1966 até 1976). Volante clássico e extremamente técnico, compensava sua falta de velocidade e estatura mediana com um posicionamento perfeito e muita habilidade. Incansável, sinônimo de raça e de amor à camisa, atuou apenas por dos duas equipes: a da seleção brasileira e a do Cruzeiro. Se o futebol fosse como o beisebol norte americano, em que se aposentam os números dos jogadores lendários, a camisa 5 do Cruzeiro seria aposentada por causa do Piazza.    

            Wilson da Silva Piazza nasceu no dia 25 de fevereiro de 1947, em Ribeirão das Neves – MG. Começou sua carreira no início dos anos 60 no clube de futebol amador Renascença de Belo Horizonte. Com a contusão do atleta Hilton Chaves, o jovem teve a sua oportunidade no Cruzeiro, sendo contratado junto ao Renascença em 1963, aos 20 anos de idade. E não a desperdiçou. Líder nato que era, Piazza recebeu, três anos depois, as bênçãos e a braçadeira de capitão de Carmine Furletti, o então vice-presidente do clube celeste.

            Formou a trinca de ouro do meio de campo de um dos melhores times do Cruzeiro de todos os tempos junto com Dirceu Lopes e Tostão e ajudou a projetar o clube nacional e internacionalmente.  Foi um dos heróis da conquista da Taça Brasil de 1966 em cima, nada mais nada menos, do time do Santos de Pelé e Cia. Teve, talvez, sua atuação mais destacada na primeira partida da decisão desse título que seria disputada no Mineirão.

Final da Taça Brasil de 1966 – parando o Rei do Futebol

O jovem time do Cruzeiro iria enfrentar a máquina de jogar do Santos, que contava com Pelé, Pepe, Gilmar e Carlos Alberto Torres, além de ser o atual penta campeão da Taça Brasil e de ter sido bi campeão da Libertadores e Mundial 3 anos antes. Um dos responsáveis de parar o ataque do esquadrão santista era Piazza. Quando a partida já estava 1x0 para o Cruzeiro, aconteceu um lance que foi a síntese do que ocorreu no Mineirão, o Rei do futebol recuou até o meio-campo, pedindo a bola. Recebeu, e, ao notar a aproximação de seu marcador, girou o corpo em um drible que marcou sua carreira, por geralmente deixar 98% de  seus marcadores humilhados, porém Pelé mal conseguiu ver o camisa 5 que passou sem praticamente tocá-lo, levando consigo a bola e puxando o contra-ataque. O maior jogador de Todos os Tempos ficou parado, observando Piazza se distanciar, sem ao menos esboçar alguma reação, tal era a surpresa de encontrar um marcador limpo, que jogava com categoria com eficiência e que desarmava magnificamente. Piazza avançou com a redonda e saiu jogando ao entregar a pelota para Dirceu Lopes, que dominou a bola e tabelou em velocidade com Evaldo, com ela chegando aos pés de Natal, que, de frente para Gilmar, só teve o trabalho de escolher o canto e fazer o 2º gol celeste.

No início da segunda etapa, mais uma vez Pelé pediu a bola, e imediatamente Piazza o desarmou com precisão cirúrgica. Então, cansado de não conseguir fugir da marcação limpa de Piazza, o Rei perdeu sua majestade. Acertou deslealmente nosso capitão, que ficou contorcendo de dor estirado no gramado. Pelé acabou sendo expulso junto com Procópio, pois este foi tomar as dores do companheiro, mostrando que ninguém ganharia do Cruzeiro no grito. Ao final da partida, o assombroso placar de 6x2 para o Cruzeiro, sem que Pelé visse a cor da bola.

Na partida seguinte no Pacaembu, o Santos abriria 2x0 ainda no primeiro tempo. Mas na segunda etapa, Piazza acertou a marcação da equipe e contribuiu para a histórica virada cruzeirense e culminou com a conquista da Taça Brasil. Como capitão, Piazza ergueu a primeira grande conquista cinco estrelas  e de um clube mineiro.

O lendário clássico do 3x3 em 1967

            Cruzeiro e Atlético disputariam um clássico decisivo para o campeonato mineiro daquele ano. Em caso de vitória alvinegra, o título estaria decidido. No primeiro tempo, nossos rivais abriram 2x0 de vantagem, com o Cruzeiro perdendo seu jogador mais importante, Tostão, por contusão além de ter Procópio expulso.

            No início da  segunda etapa, o Atlético ampliou para 3x0, e o Cruzeiro estava fadado a uma goleada. Mas, mesmo com um jogador a menos e sem a sua maior estrela, o time celeste diminuiu o placar com dois gols de Natal. Eis que Evaldo e Hilton tabelaram, e o atacante foi derrubado pelo goleiro Hélio. Porém, o batedor oficial havia saído do jogo, então a força do capitão falou mais alto. Piazza correu e colocou a bola debaixo do braço, assumindo a responsabilidade. Nem mesmo os jogadores atleticanos tentaram intimidá-lo, tamanha sua vontade de marcar o gol, evidente no seu olhar. Tensão no Mineirão, mas com grande categoria, Piazza jogou a bola para um lado e o goleiro para o outro, empatando heroicamente a partida. A virada só não ocorreu pois, nos últimos minutos, Zé Carlos acertou uma cobrança de falta no travessão.

            Ao final do campeonato, mais uma taça levantada pelo eterno capitão, a de tri campeão Mineiro.

Tri campeonato Mundial pela seleção no México em 1970

            Para escalar os melhores jogadores em atividade no país, Zagallo foi obrigado a improvisar alguns na Copa do Mundo. Rivellino virou uma espécie de ponta-esquerda. Tostão, meia de origem, atuou um pouco mais avançado e jogou com a camisa nove. Já Piazza, autêntico volante no Cruzeiro, foi recuado para a quarta-zaga. Ele fez dupla com Brito e não decepcionou. No final, o Brasil comemorou o tricampeonato mundial no México. E Piazza entrou para a história por ter feito parte de uma das melhores seleções de todos os tempos.

Dor, suor e a conquista da América – a Taça Libertadores de 1976

            A conquista da América em 1976 foi precedida por uma grande decepção. Em 1975 a equipe Azul poderia até perder por 2 gols de diferença para o Independiente e mesmo assim estaria na final da Copa Libertadores. No entanto, o time argentino venceu por 3x0.

            Após essa derrota, houve mais uma demonstração do amor de Piazza pelo Cruzeiro. O grande camisa 5 foi um dos que ficou mais abatido no time,  demonstrando, assim, todo seu amor pelo Cruzeiro. Ele estava envergonhado pela derrota do time por um placar dessa elasticidade. Ao chegar ao hotel, sequer havia tirado as chuteiras, e muito menos jantou. Não compreendia e não aceitava a derrota do time Azul, por mais que ele tenha lutado.

 

Para compensar essa tristeza, o Cruzeiro chegou à final da Libertadores de 1976 e jogaria contra o River Plate da Argentina. Na primeira partida no Mineirão, baile celeste e goleada por 4x1. Na segunda partida no Monumental de Nuñes, em Buenos Aires, vitória dos Milionários por 2x1. Então, haveria a terceira partida em Santiago para decidir quem levaria o troféu.

            O primeiro tempo terminou com vitória parcial do Cruzeiro por 1x0, gol de Nelinho de penalty. Porém poucos sabiam que no vestiário celeste ocorria um drama: o capitão Piazza já não conseguia mais andar. Mas Piazza afirmou que não sairia e que queria ser campeão da América com o Cruzeiro, mostrando o verdadeiro amor à camisa. Assim pediu ao médico do clube uma infiltração, que lhe foi negada. Então, o  capitão recorreu ao diretor Furletti e exigiu a injeção de cortizona e xelocaína, mesmo colocando sua carreira em risco. Isso só mostra toda a devoção que ele tinha pelo clube. Com as aplicações, Piazza voltou para o segundo tempo e ajudou na vitória de 3x2, com o gol moleque de Joãozinho, e ergueu o troféu mais importante do clube e de um time mineiro na época, a Libertadores.

            Encerrou sua carreira em 1978. Ao todo fez 566 jogos pelo Cruzeiro (único clube que defendeu), marcando 40 gols. Conquistou a Taça Brasil de 1966, a Libertadores de 1976 e 10 mineiros no total (recordistas de títulos estudais em Minas Gerais). Pela Seleção, fez 59 partidas, sendo titular na conquista do tri campeonato mundial de 1970 e capitão na Copa do Mundo de 1974, com o Brasil ficando em 4º lugar.

            O grande Piazza foi o melhor exemplo do que é ser Cruzeiro e mineiro, pois  jogou com raça, vontade, categoria, lealdade e simplicidade. Não é por menos que é o jogador que por mais tempo foi capitão do clube. Foi a síntese do verdadeiro amor à camisa, da garra e da luta, mostrando que futebol não é só dinheiro. Até hoje frequenta os bastidores do clube e nunca esconde seu amor às cinco estrelas. Esse é o nosso Eterno Capitão.

Ficha Técnica

Nome

Wilson da Silva Piazza

Data de Nascimento

25 de fevereiro de 1947

Local de Nascimento

Ribeirão das Neves - MG

Número da Camisa

5

Posição

Volante (improvisado na zaga da seleção em 1970)

Clubes Profissionais

Clube

Anos

Jogos

Gols

Renascença

1962 - 1963

?

?

Cruzeiro

1963 - 1978

566

40

Seleção Brasileira

De 1967 a 1977

59 jogos

Títulos

Cruzeiro

1 Taça Brasil: 1966

1 Taça Libertadores: 1976

10 Campeonatos Mineiros: 1965; 1966; 1967; 1968; 1969; 1972; 1973; 1974; 1975; 1977.

 

Seleção Brasileira

Copa do Mundo: 1970

Prêmios

Bola de Prata da Revista Placar em 1972

6 Troféus Guará: 1965; 1966; 1969; 1970; 1972; 1975

Recordes

10 anos como capitão do Cruzeiro (1966 – 19760) recorde no clube;
Jogador com mais títulos Mineiros na história, 10 conquistas.



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